Atualizações

    NR-1: a saúde das pessoas precisa estar no centro da gestão

    Atualizado em: 22 de maio, 2026

    Por Paulo Acorroni, CEO do Ouvidor Digital

    Muitos líderes me perguntam qual é o segredo para manter a produtividade alta e o turnover baixo em um mercado tão volátil. A resposta, quase sempre, é mais simples e mais difícil do que parece: ela não está apenas na remuneração, nos benefícios ou nos modelos de contratação. Está, sobretudo, no suporte e na cultura que a empresa constrói no dia a dia.

    Eu costumo dizer que, para o colaborador vestir a camisa da empresa, a empresa precisa vestir a camisa do colaborador.

    Isso significa reconhecer que o maior ativo de uma organização não é o seu produto, a sua tecnologia, a sua marca ou o seu modelo de negócio. O maior ativo de uma empresa continua sendo a saúde, a energia, a confiança e a capacidade de entrega das pessoas que fazem a engrenagem girar.

    Durante muito tempo, esse tema foi tratado por algumas lideranças como uma pauta complementar, ligada a bem-estar, clima organizacional ou ações pontuais de engajamento. Mas a realidade do trabalho mudou. A pressão por performance, a aceleração digital, a instabilidade econômica, a sobrecarga emocional e os conflitos internos passaram a ocupar um lugar central na agenda de riscos das empresas.

    Cuidar da saúde do time não é uma benevolência. É estratégia de negócio. É gestão de risco. É perenidade.

    Agora estamos a poucos dias da implementação oficial da nova NR-1. E o que antes era muitas vezes tratado como uma boa prática agora passa a exigir estrutura, método, documentação e acompanhamento.

    Vale parar um instante aqui, porque esse ponto é importante. A NR-1 não está dizendo que as empresas precisam resolver, caso a caso, os problemas pessoais dos seus colaboradores. A exigência está em algo mais concreto: identificar, avaliar, controlar e monitorar os riscos ocupacionais presentes no ambiente de trabalho, inclusive os psicossociais. E isso não pode ficar no campo do “achismo”. Existem métodos, critérios e evidências para fazer essa leitura com responsabilidade. 

    Assédio moral, metas abusivas, sobrecarga crônica, conflitos recorrentes, baixa autonomia, falhas de comunicação, insegurança psicológica, violência organizacional e ausência de canais adequados de escuta não podem mais ser vistos apenas como problemas de clima ou de relacionamento. Em muitos casos, são sinais de risco ocupacional. E risco ocupacional precisa ser gerenciado.

    Os dados mostram que não estamos diante de um tema abstrato. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, um crescimento de 15,66% em relação a 2024. Transtornos ansiosos e episódios depressivos estiveram entre as principais causas desses afastamentos.

    Esse número deveria tirar qualquer liderança da zona de conforto.

    Por trás de cada afastamento existe uma pessoa. E também existe uma operação impactada, uma equipe sobrecarregada, um custo previdenciário, uma perda de produtividade, uma liderança pressionada e, muitas vezes, um sinal que a empresa não soube captar a tempo.

    A Organização Internacional do Trabalho também tem chamado a atenção para a relevância dos riscos psicossociais no mundo do trabalho. Um relatório de 2026 aponta que riscos como longas jornadas, insegurança no trabalho e assédio estão associados a perdas relevantes para a saúde dos trabalhadores e para a economia global, com impacto estimado em 1,37% do PIB mundial ao ano. 

    É por isso que a NR-1 não deveria ser reduzida a uma checklist qualquer. Estamos falando de governança. Estamos falando de governança, da capacidade da empresa de conhecer seus riscos, agir sobre eles e demonstrar, com evidências, que possui mecanismos efetivos de prevenção.

    Não basta ter uma política formal. Não basta realizar uma palestra. Não basta dizer que a empresa “se importa” com saúde mental. As perguntas que eu faria às lideranças são mais diretas: quais riscos psicossociais existem hoje na sua empresa? Como eles foram identificados? Como foram classificados? Quais áreas apresentam maior exposição? Que medidas de prevenção foram adotadas? Quem acompanha a evolução desses indicadores? 

    A implementação da NR-1 deve ser vista como uma oportunidade para integrar áreas que historicamente atuaram de forma fragmentada: Recursos Humanos, Compliance, Jurídico, Segurança do Trabalho, liderança executiva e canais de escuta. A gestão de riscos psicossociais não pertence a uma única área. Ela exige coordenação institucional.

    O RH enxerga a dinâmica das pessoas. A Segurança do Trabalho traz a lógica normativa e preventiva. O Compliance contribui com governança, investigação e tratamento de condutas inadequadas. O Jurídico avalia exposição e responsabilidade. A liderança define prioridade, orçamento e cultura. E os canais de escuta ajudam a captar riscos que, muitas vezes, não aparecem nas pesquisas formais. 

    Quando esses elementos não conversam, a empresa perde visão sistêmica. E, sem visão sistêmica, a gestão de riscos psicossociais tende a virar uma soma de iniciativas desconectadas.

    A nova NR-1 coloca as empresas brasileiras diante de uma mudança de maturidade na gestão da saúde ocupacional. O desafio está em reconhecer, com critério técnico, quando a forma de organização do trabalho passa a expor as pessoas a riscos que poderiam ser prevenidos, como adoecimento, conflitos recorrentes, assédio, sobrecarga crônica e desgaste emocional.

    As empresas que compreenderem isso antes sairão na frente. Não apenas porque reduzirão riscos legais ou evitarão autuações, mas porque construirão ambientes mais sustentáveis, produtivos e confiáveis.

    No fim do dia, produtividade e cuidado não são forças opostas, pelo contrário! Ambientes saudáveis tendem a gerar decisões melhores, reter talentos com mais consistência, reduzir ruídos internos e sustentar performance por mais tempo.

    Afinal, nenhuma empresa é verdadeiramente produtiva quando adoece as pessoas que sustentam seus resultados.

    E aí, como está o seu plano de ação?

     

    Por Paulo Acorroni, CEO do Ouvidor Digital

     

    Conheça as soluções do Ouvidor Digital para apoiar a construção de ambientes de trabalho mais éticos, seguros e transparentes.

    CONTEÚDOS

    Relacionados

    Fotografia de duas executivas, uma negra com blazer marinho e uma asiática com blazer cinza, conversando em um escritório moderno. A mulher asiática segura um tablet que exibe o aplicativo 'Relato Seguro' com um logotipo de escudo e cadeado. Um monitor de parede atrás delas exibe um dashboard corporativo intitulado 'Gestão de Denúncias' em português, com gráficos e organogramas. Outros funcionários trabalham ao fundo, desfocados, sob luz de escritório moderna.

    Canal de denúncias e prevenção de assédio no ambiente de trabalho

    No contexto corporativo brasileiro, o canal de denúncias é uma ferramenta essencial para a prevenção do assédio no ambiente de trabalho. A existência de um mecanismo seguro
    LEIA MAIS
    Reunião corporativa com equipa diversa em ambiente profissional moderno, representando o conceito de triple bottom down, com foco em equilíbrio entre resultado económico, responsabilidade social, sustentabilidade e governança.

    Triple bottom down: por que equilíbrio, ESG e integridade precisam caminhar juntos nas organizações

    Durante muito tempo, o sucesso das empresas foi medido quase exclusivamente pelo resultado financeiro. Essa lógica mudou. Hoje, crescer sem considerar impactos sociais, ambientais e éticos deixou
    LEIA MAIS
    regulamentação das apostas esportivas

    A Nova Era das BETs: Requisitos para Operar no Brasil

    A regulamentação do mercado de apostas esportivas de quota fixa no Brasil, marcada pela promulgação da Lei nº 14.790 de 2023 (Lei das Bets), trouxe um novo
    LEIA MAIS