
Um post recente nas redes sociais ganhou tração ao trazer um conselho contundente: não confiar em chefe, não confiar em compliance, não confiar em canal de ética ou colegas de trabalho.
A afirmação, por si só, já escancara um ambiente marcado pela insegurança e pela ausência de confiança institucional.
Na sequência, outra pessoa compartilha sua experiência. Após fazer uma denúncia de assédio, foi desligada da empresa, enquanto o assediador seguiu normalmente no cargo. O relato dá materialidade ao alerta inicial. O medo não é abstrato, ele se confirma na prática.
Por fim, um terceiro comentário acrescenta um elemento central para essa discussão, a falta de um canal independente de denúncias.
Esses relatos não são exceções. Eles são sintomas. Sintomas de organizações em que a estrutura formal de compliance até existe, mas a confiança institucional já se perdeu.
Quando o canal de denúncias passa a ser percebido como um risco pessoal, a cultura de integridade entra em colapso silencioso.
O medo como regulador do comportamento
Em ambientes onde denunciar resulta em exposição ou retaliação, o medo passa a regular o comportamento dos colaboradores. As pessoas observam, comentam entre si e aprendem rapidamente qual é o limite real do discurso institucional.
Não é preciso que haja uma retaliação explícita. A simples percepção de que alguém “pagou o preço” por falar é suficiente para gerar silêncio coletivo. O resultado é previsível, menos relatos, problemas embaixo do tapete e riscos acumulados.
Para compliance e RH, esse é um dos cenários mais perigosos. A ausência de denúncias não indica ambiente saudável. Muitas vezes, indica apenas que ninguém acredita que falar valha a pena.
Liderança observada, não ouvida
A cultura ética não se sustenta em comunicados ou campanhas isoladas. Ela se constrói na forma como decisões difíceis são tomadas. Quando lideranças relativizam condutas, protegem pares ou interferem em apurações, o efeito é imediato e duradouro.
As pessoas não avaliam o discurso da alta direção, avaliam as consequências práticas. Quem é investigado. Quem é responsabilizado. Quem permanece. É nesse ponto que o chamado tone at the top deixa de ser conceito e se torna realidade concreta, positiva ou negativa.
A confiança no canal começa pela independência
O comentário que destaca a falta de um canal independente toca em um ponto sensível. Quando o canal é operado internamente, como em caixas de email ou formulários, sem garantias claras de segregação e imparcialidade, o risco percebido pelo denunciante aumenta. A dúvida já é suficiente para afastar relatos.
A independência do canal não é um detalhe operacional. Ela é um pilar de credibilidade. Um canal terceirizado reduz conflitos de interesse, aumenta a sensação de proteção e transmite uma mensagem objetiva: a empresa está disposta a ser questionada, inclusive sobre suas próprias lideranças.
Processo mal definido gera injustiça percebida
Outro fator recorrente nesses relatos é a sensação de injustiça. Muitas organizações possuem um canal, mas não estruturaram adequadamente o processo de apuração. Falta clareza sobre quem analisa, quem investiga, como as decisões são tomadas e como os casos são encerrados.
Esse vazio abre espaço para interpretações pessoais, interferências e erros que comprometem não apenas o caso específico, mas a confiança no sistema como um todo. Para quem denuncia, o processo precisa ser tão confiável quanto o canal.
Leia mais: Condução e Tratamento de Denúncias: Diretrizes para uma Cultura de Compliance Fortalecida
Regras só fazem sentido quando valem para todos
Códigos de Conduta perdem valor quando não são aplicados de forma consistente. A percepção de tratamento desigual, especialmente quando envolve cargos de liderança, corrói rapidamente a legitimidade do programa de integridade.
Não se trata de punir mais, mas de punir com coerência. A previsibilidade das consequências é um dos elementos mais importantes para a construção de ambientes éticos e seguros.
Falar sobre ética exige preparo contínuo
Treinamentos periódicos e comunicação estruturada não são acessórios. Eles são o espaço em que a empresa deixa claro o que espera, como agir diante de situações sensíveis e quais caminhos estão disponíveis para relatar problemas.
Quando esses temas só aparecem em momentos de crise, a mensagem implícita é de improviso. A cultura, por outro lado, se forma na repetição, no diálogo e na clareza.
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Transparência como base da confiança
Empresas que comunicam seus processos constroem confiança ao longo do tempo. O silêncio institucional costuma ser preenchido por boatos e narrativas externas, muitas vezes mais danosas do que a própria realidade.
Transparência não expõe pessoas, expõe compromisso.
O alerta por trás do desabafo
Os comentários que circulam nas redes não são um ataque ao compliance. São um alerta sobre o que acontece quando estruturas existem apenas no papel. Quando denunciar vira sinônimo de risco, a integridade deixa de ser um valor organizacional e passa a ser um discurso vazio.
Para gestores de compliance, RH e lideranças, o desafio é claro: criar ambientes onde falar seja seguro, onde processos sejam confiáveis e onde as regras tenham peso real. Não por exigência legal ou reputacional, mas porque sem isso a empresa perde algo fundamental, a confiança de quem a constrói todos os dias.
No Ouvidor Digital, nossa missão é apoiar pessoas e empresas na construção de organizações mais éticas, transparentes e seguras para falar. Fazemos isso ajudando a estruturar canais de denúncia independentes, processos confiáveis e práticas que protegem quem decide relatar.
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