Compliance

    Assédio no trabalho como risco psicossocial: o que casos de grande repercussão revelam sobre falhas estruturais

    Atualizado em: 19 de janeiro, 2026

    O tema do assédio voltou ao centro do debate público após um episódio de grande repercussão nacional exibido em um programa de televisão de ampla audiência. Situações como essa costumam gerar indignação imediata, mas o seu impacto vai além da reação social momentânea. Elas expõem comportamentos e dinâmicas que, fora dos holofotes, também se reproduzem em ambientes corporativos.

    Quando comportamentos abusivos são relativizados em espaços de alta visibilidade, a mensagem transmitida é clara e perigosa. O assédio passa a ser tratado como “conflito”, excesso de sensibilidade ou ruído relacional. No mundo do trabalho, essa normalização sustenta a cultura do silêncio e impede que riscos reais sejam identificados e tratados.

    Hoje, esse tema não pode mais ser analisado apenas sob a ótica comportamental ou disciplinar. O assédio no trabalho é um risco psicossocial e precisa ser gerido como tal.

    Assédio no trabalho é risco psicossocial e exige gestão estruturada

    A atualização da NR-01 trouxe uma mudança relevante na forma como as empresas devem lidar com fatores que afetam a saúde e a segurança dos trabalhadores. Entre esses fatores estão os riscos psicossociais, que incluem situações de assédio moral, assédio sexual, discriminação e outras formas de violência no ambiente laboral.

    Isso significa que o assédio no trabalho precisa ser identificado, avaliado e controlado, assim como qualquer outro risco ocupacional. Não se trata apenas de reagir a denúncias, mas de mapear vulnerabilidades, analisar contextos organizacionais e implementar medidas preventivas.

    Ignorar o assédio como risco psicossocial expõe a empresa a impactos diretos na saúde mental dos colaboradores, aumento de afastamentos, queda de produtividade e passivos trabalhistas e reputacionais.

    A dimensão do assédio no trabalho no Brasil é alarmante. Dados do Instituto Patrícia Galvão indicam que 76% das mulheres brasileiras já sofreram violência ou assédio no ambiente de trabalho. Esse número evidencia que o problema não é pontual nem restrito a setores específicos, é sistêmico.

    A pesquisa indica, ainda, que em 36% dos casos relatados nada aconteceu e o agressor não foi punido. Esse cenário demonstra uma falha clara nos mecanismos de escuta, acolhimento e resposta. Quando a maioria das vítimas opta por não denunciar, o risco permanece invisível nos relatórios formais, mas ativo na rotina organizacional. 

    Leia também: Medo de denunciar? Um alerta sobre a cultura de integridade nas empresas

    Sob a lógica da NR-01, risco não identificado é risco não controlado. E risco não controlado tende a se materializar em dano.

    Canal de denúncias como ferramenta essencial na gestão do risco psicossocial

    Um canal de denúncias eficaz deixa de ser apenas um instrumento de compliance e passa a ocupar um papel estratégico na gestão de riscos psicossociais, incluindo o assédio no trabalho.

    Para cumprir essa função, o canal precisa ser:

    • Independente
    • Confidencial
    • Acessível
    • Capaz de receber denúncias de forma anónima
    • Integrado a processos claros de apuração e resposta

    Sem um canal confiável, o assédio não aparece nos mapas de risco, não entra nas análises da NR-01 e não é tratado de forma preventiva. O resultado é um ambiente onde a violência persiste, mesmo quando políticas e treinamentos existem apenas no papel.

     

    Treinamento, mapeamento e resposta: o tripé exigido pela NR-01

    A NR-01 reforça que a gestão de riscos psicossociais exige ações contínuas. No contexto do assédio no trabalho, isso passa por três pilares fundamentais:

    1. Mapeamento de riscos
      Identificar áreas, funções e contextos mais expostos a situações de assédio.

    2. Capacitação e sensibilização
      Treinamentos periódicos que abordem assédio, limites, condutas esperadas e canais disponíveis.

    3. Resposta institucional estruturada
      Processos claros de apuração, proteção contra retaliações e medidas corretivas eficazes.

    Quando um desses elementos falha, o risco permanece ativo e a empresa perde capacidade de prevenção.

    O que episódios de grande visibilidade ensinam às organizações

    Casos de ampla repercussão social escancaram uma pergunta que nenhuma empresa pode ignorar: se uma situação de assédio no trabalho ocorrer, ela será tratada como um risco psicossocial real ou será relativizada até se transformar em crise?

    A atualização da NR-01 deixa claro que o tempo da omissão acabou. Assédio no trabalho é um fator de risco que precisa ser reconhecido, mapeado e gerido de forma técnica e responsável.

    Prevenir o assédio no trabalho exige mais do que reação a crises ou cumprimento formal de normas. Exige estrutura, governança e mecanismos contínuos de escuta. O ecossistema de soluções do Ouvidor Digital apoia as empresas na gestão da cultura ética, integrando canal de denúncias independente, processos estruturados de apuração, apoio à gestão de riscos psicossociais e ações de comunicação e treinamento. Converse agora mesmo com um de nossos especialistas.

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